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domingo, 26 de maio de 2013





DO CIMO DAS SUAS DORES

Click de AG | Edição de Suzamna Guimaraens


Do cimo das suas dores
brinca por caminhos de ar
intervalo de vinte minutos para sonhar
em anárquico-cósmico vai-vem.

O impulso, o voo, o impacto.

Enquanto paira,
a menina estabelece uma conversa azul
com uma palhaça branca,
chamada Mulher
; cujos cabelos, outrossim brancos,
– sedutores sem remorso –
inflamam-se na eminência de amargura.

Os cabelos da palhaça ardem inopinadamentee
e, ao assim vê-la,
os olhos da catraia diluem-se
em desmesurada almofada verde-palha,
onde Mulher decide repousar.

A pequena sorri e esquece
; esquece que esqueceu
que Mulher
– a palhaça branca –
seca de sede
caíra de um céu outrora farto,
durante um ensaio de trapézio de paraíso fiscal
com palhaços ricos de uma offshore nacional,
que, no último momento, lhe desviaram a rede
para apanharem ovos de ouro de lagarto.


(ridendo castigat mores)


Como nada é só e independente,
a menina oferece, sem saber porquê,
o seu chapéu de pluma lilás a Mulher,
que ainda treme.

Por solidariedade, e enquanto geme,
olhares de homens de talho amortizam-lhe os temores,
e cobrem o seu corpo dorido de flores sem pudores
frente às carcaças, prenhes de esperança, que regurgitaram.

A menina sorri e esquece
: sente que ninguém chega a cair
quando vive de uma só vez
num voo frágil de criança.

E os olhares pesados,
que queriam perder opacidade,
(e não sabem como, sem internet ou dinheiro à vista)
pensam: – é agora! Abandono a cidade!

A questão é que a menina material e a palhaça
são a mesma ilusão aldeã – o mesmo chapéu ideal.

As suas dores
(de cetim escarlate perpendicular à pendente)
são inferiores aos sonhos da pluma lilás esvoaçante
e às fantasias urbanas dos homens de talho
: tudo o que existe... ou não,
tudo interligado,
(como um chapéu que não se solta da cabeça em pleno salto)
e até isso lhe querem tirar (vejam bem!)
com eleições e antidepressivos.

Ainda não compreenderam que há devaneios
com veias e artérias e pregas vocais,
que são a melodia de fundo,
(não, não o 1º movimento de Dvorak no seu "Novo Mundo")
: o timbre singular que sustenta
a exonização de cada criador nas presentes coordenadas locais.

Não se sente o efeito da gravidade
enquanto vive a voz doce longe do chão
; o que é tão mais verdade, quanto mais dela nos acercamos.

Do cimo das suas dores,
permeando a jaula que lhe encarcera a infância,
ela torna a saltar.

Enlevada pela sua própria natureza,
trauteia que todos vieram para (se) salvar.

E salta mais alto ainda
; salta porque se abandona e se distrai do
“ai, o que não tenho? | oh, onde m’encaixo?”

"Talvez a magia" – pensa –
"seja, cá em baixo,
prolongar o voo,
e, descalça, arremessar-me inteira,
a mais trinta minutos para sonhar."

Então, um novo ser entra em órbita,
despindo as dores de densidade.

Todo anjo amanhece

: um prenúncio de eternidade.








suzamna guimaraens

julho 2012




à minha prima Raquel (1971-2011)



#1 DIÁSPORA LEUQAR


Hoje, 
ao abrir uma gaveta ligada à internet,
ergueu-se, de um envelope by air mail,
a tua caligrafia.

Não te reli.

Fiquei-me pela dança externa,

                                  aérea,

da tua tinta.

Prometi responder-te noutro lugar,
mais arbóreo e
menos vocabular

; porventura, sobre claustros imperfeitos
ou na rouquidão de um diário de biquini,
                 despido pelo vento no pinhal.

Claustros com agulhas de pinheiro 
e asas de "rosa Shangri-la"

] suspensos, lilases [
como o nosso reencontro.

Não sei... Responder-te, algures,
na dispersão da tua cinza.

Jamais junto à pieguice 
de uma gaveta de lágrimas,
que (se um minuto a mais)
– com a equanimidade de um bodhisattva –
mandarias queimar.








suzamna guimaraens

maio 2012



sábado, 25 de maio de 2013

OLÁ, LUA!











Cristais à Lua~cheia...

Desta vez, deixei-os imersos em água da fonte com sal-marinho durante três dias e quatro noites. 
No plenilúnio permiti religação, sem pensar muito. Mergulhei neles...

Na manhã seguinte, coloquei metade do obelisco de Cristal-Quartzo no peito e a outra metade 

na testa. É portentoso o seu efeito!

Através da experiência, aprendi que fazê-lo à noite, sendo o objetivo apenas dormir, era contraproducente. De facto, concilia duas virtudes paradoxais: fortalece e regula-me 
cadência cardíaca e estimula-me a criatividade... 

A certa altura, porém, pergunto-me por que razão senti necessidade deste processo.
Afinal, também sou capaz de obter resultados semelhantes, de forma autónoma,
através da respiração e da concentração.

Porém, o desafio talvez seja o reconhecimento da interdependência entre todos
os fenómenos, reconhecimento, esse, que (de alguma forma) me humilda e expande.

Partilho, neste âmbito, o efeito do Cristal-Quartzo nos ⇢ relógios  do qual é parte constituinte
e uma breve animação que distingue entre o funcionamento do relógio solar, do pendular
e do relógio quartzo.





A questão é, sendo que o Cristal-Quartzo necessita de corrente elétrica, serei eu a fonte dos impulsos
que provoca o seu efeito? Serei eu, simultaneamente, a bateria e o relógio? A corrente e o próprio Cristal?...








CAMPANÁRIO LUMINÁRIO


Dum barroco de granito, na erosão do ressurgir da torga,
Johann Sebastian Bach e Frida Kahlo exsudam um tema
 catártico de feridas e calos arcaicos sobre a frontaria da
ex-capela da minha ideia-natal; 

por fora está toda iluminada e Edison (que traz sempre
um cristal quartzo no bolso) prefere lâmpadas económicas
à las Vegasnice do néon rosa da rosácea; porém, não se
despeja no altifalante por com-
paixão.


Deixo entrar o vestido e descoso os sapatos à boqueira.


Adentro está escuro
: nem candelabros poeirentos, nem velas de plástico frenético.

Farejo a pele de tronco talhado.

Acende-se um espelho no altar vazio

; um es-
pelho 
de ca-
marim,
da en-
verga-
dura de um comum (i)mortal, predestinado
à notoriedade do suplício – vão na redenção 
dos se-
te bili-
ões de 
peca-
dores,
refleti-
dos no
mesmo
vício
; pois,
o que
evolu-
ímos
N.Ó.S
além 
do plágio?

(Dadores de dores: eis o contágio.)


ateio
o tempo que foge
(que mais não é do que um de-
ambular no espaço); e a gravidade
extrema lateral, que me confere às
janelas aquele semblante profundo e 
d  e  s  a  m-
parado (por um processo similar ao
 dos space shuttles) abandona-me
a ermida. Bebo d’a água benta. 
Faço o sinal do coração, sem
joelhos em dobra,
e conecto o 
néo-cortex 
às correntes.


] interlúdio [


Introduzo cinco 
cêntimos na ranhura, para a jukebox
submerjo na Mikvah batismal até à garganta
com ares de santa e “O Cravo Bem Temperado”
; espamodicamente, o espelho – agora giratório –
reflete-me as cabeçasEletrões-livres revolitam con-
temporaneamente no paraíso da frequência mais coe-
rente com o vazio da minha carne, envolvida numa au-
ra de magnéticas maçãs trincadas. O néon e a jukebox 
esgotam-se. De uma guitarra de dois cilindros de zinco
e cobre alternados, Alessandro Volta e eu dedicamos o 
“Novo Fado Alegre” a Maomé, Moisés e Mães Marias.
Instalação etnográfica, constelação holográfica, Kali-Má
de simbolismos esotéricos e políticos: sem cartazes, cra-
vos, rosas ou mamas à mostra. Há espaço para todos na 
SIM
-dade, verdade,
mas respiro melhor no átrio desta igreja abandonada, sem mi-
rones online, que não comentam por comodismo ou preserva-
ção aurtística. Intersubjetividade universalista é aqui? (Oh, Eva-
rista, mas e tu não és aurtista?) Alguns sorumbáticos fundamenta-
listas da contemplAção terroristo-cultural não sucumbem ao vírus e-
cuménico, sem objetivos mensais, desta obs-
c u r a       (a)       r a d i a ç ã o,
nem à fricção prolongada do âmbar de Tales de Mileto sobre todas as sec-
ções cónicas de Hypatia de Alexandria. (Hélas!) “Palavras loiras como trigo”
feitas de Luz, 
as que te digo, do cimo dos meus doze porquês. Se Deus é uma pergunta para si
mesmo, por quem me Thomas? Toca o sino doze vezes, sem curto-circuito. Mergulho
inteira e descalça: auto-cobaia. Acordo convicta, na Incerteza de Heisenberg, sem agenda
gregoriana ou maia. Na pestana uma remela soberana, voltaica; metonímia hiper-
-realista, orgânico-aramaica. Regresso. O ente cresce; urgente é 
mais espaço. Incinero a placenta deste lado do uni-
Verso.







suzamna guimaraens

junho 2012