Passamos a vida com os pés assentes na terra, deitados, sentados,
suspensos por qualquer estrutura voadora, deslizante ou sustentora do nosso
peso e inércia. A terra, ou um seu (i)legítimo representante, é o nosso meio. Saímos
das árvores para, resignada e erectamente, marcharmos.
Porém, se por genuínos
segundos variarmos de meio, rompermos os elos desta gravidade marcial, sem geringonças
pelo meio, por baixo ou por cima – apenas o corpo e a vontade – é um exercício
que pode a alguns evocar o limiar entre a loucura e o surrealismo ou – num
esforço de tolerância – a elegância de uma baleia que se contorce, arqueia e
estica nos reinos do céu e do sol, num antigo ritual que pode ser de
acasalamento, uma forma de comunicação ou, tão somente, um processo para
remover parasitas.
Pois, o que esta mamífera de 41 anos (desde o passado dia 7)
experimenta sempre que se solta por escassos milímetros (ou pouco mais) do
reino terrestre é um sentimento palpável de júbilo e de liberdade, de possibilidade de rotura com formas de pensamento auto e
hetero-impostas e, com ela, a hipótese de diferentes perspetivas,
sempre a partir do corpinho “que um dia a terra há-de comer”... Uma
oportunidade de, intencionalmente, cristalizar momentos de reformulação, de
revisão lúcida de padrões e, claro, de retoma dos anos perdidos da infância.
Com um salto, racha-se o ar, retorna-se às raízes. Com um saltinho, desconstrói-se sem se arruinar: reformula-se,
transmuta-se.
Somos, num átimo, todo o ar. E pode muito bem ser quanto baste.
Abraç*