Ontem, dia 20 de Agosto de 2012, pela segunda vez em dois anos, entrou um jovem pombo pela chaminé da sala
da casa da minha mãe. Espaventado, esvoaçou três ou quatro vezes de uma ponta à
outra da divisão, refugiando-se por cima dos armários mais altos e das sanefas.
Desviou alguns bibelots de louça e deitou várias cabaças pintadas ao chão, de
uma altura de cerca de dois metros, mas apenas duas delas se partiram.
Entre os
gritos de pânico da Joana, a preocupação da minha mãe e o meu próprio
sobressalto, apanhei-o, finalmente, do chão.
Senti-lhe, então, o coração pulsante, a vida quebradiça, tenra nas
minhas palmas... Já todos em silêncio, aquietou-se em escassos segundos.
Tudo decorreu
muito rapidamente, até ao momento em que, já a céu aberto, abri as mãos para
que se libertasse.
E o tempo ali parou, pois era estranho o que sucedia que, de
todo, obedecia ao imediato previsível: simplesmente, o pompinho não voava. Deixou-se permanecer, imóvel, entre os meus dedos em leque, numa estática que ponderei
se feita de medo ou da ignorância do voar (que, em última análise, na essência, não diferem entre
si).
Mas, estava enganada. Como se dentro de plasma se movesse,
ergueu-se e, exaltando as asas, dirigiu-se num voo convicto na direção oposta à
qual estava posicionado. Dir-se-ia que, de costas, tivera medido a distância
entre as minhas mãos e o seu destino próximo: o telhado do vizinho Afonso, a
duzentos metros, do outro lado da rua.
Por coincidência, um par de horas
depois, ambas as filhas do dono da casa, vieram cumprimentar-nos e tivemos uma agradável
conversa, como já não acontecia há anos. Não chegámos a falar do pombo negro e
do seu presumível primeiro voo.
Talvez, de resto, não fosse tema para gente
normal... ;o)
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| Fotografia de Rosa Maria | 20 de Agosto de 2012 | Edição de Suzamna Guimaraens |