terça-feira, 24 de dezembro de 2013

"DUPLA CONSCIÊNCIA"


"Para terminar, queria insistir na ideia de que é necessário evitar fecharmo-nos num pensamento binário, isto é, um pensamento obnubilado por um único pólo de atenção em detrimento de outros. Se insistirmos demasiado só em Auschwitz, corremos o risco de minimizar insidiosamente o goulag e de silenciar outras barbáries. Se nos limitarmos unicamente ao factor quantitativo, o número de mortes provocadas pelo sistema concentracionário soviético foi muito maior. O goulag durou muito mais tempo do que o período de extermínio nazi que começa em 1942 e termina no início de 1945. Aliás, este período acabou numa hecatombe de sobreviventes reunidos tragicamente em poucos dias. O tifo e as longas caminhadas esgotantes, sob condução das SS, para fugir ao avanço dos Aliados foram horrivelmente mortais. Quando os Aliados chegam às portas de Dachau, deparam-se com amontoados de cadáveres. Ficou então a impressão de que o horror nazi se limitou a este efeito de empilhamento de corpos. Na realidade, isto tinha a ver com o facto da máquina de extermínio e eliminação ter parado. Os fornos já não funcionavam, os cadáveres empilhavam-se. Porém, o horror nazi tem menos a ver com o empilhamento de cadáveres do que com o funcionamento desta máquina de morte aperfeiçoada. Não é necessário que uma imagem, por mais horrível e gritante que seja, nos esconda a realidade. É um pouco o que se passa. O genocídio judeu é-nos apresentado como sendo mais horrível do que o extermínio massivo que foi o goulag, do qual não tivemos imagens e que durante muito tempo foi ocultado. Tudo isto para dizer que a tendência para negar o goulag em proveito de Auschwitz ou, obviamente, o contrário, não tem efectivamente sentido. Assim, desconfiemos da barbárie mental que, para minimizar consciente ou inconscientemente os crimes do estalinismo, faz do hitlerismo o horror supremo e absoluto.
É a uma nova reivindicação humanista que devem conduzir as trágicas experiências do século XX: que a barbárie seja reconhecida pelo que é, sem simplificações ou falsificações de qualquer espécie. O importante não é o arrependimento mas sim o reconhecimento. Este reconhecimento tem de passar pelo conhecimento e pela consciência. É necessário saber o que realmente se passou, ter consciência da complexidade desta colossal tragédia. Este reconhecimento deve respeitar todas as vítimas: Judeus, Negros, Ciganos, homossexuais, Arménios, colonizados da Argélia ou de Madagáscar. Este reconhecimento é necessário se pretendermos ultrapassar a barbárie europeia.
É necessário ser capaz de pensar a barbárie europeia para ultrapassá-la, pois o pior é sempre possível. No âmago do deserto ameaçador da barbárie, estamos, de momento, sob a relativa protecção de um oásis. Mas também sabemos que nos encontramos em condições histórico-político-sociais que tornam o pior exequível, particularmente em períodos paroxísticos.
Por detrás das próprias estratégias que deveriam contrariá-la, a barbárie ameaça-nos. O melhor exemplo é Hiroxima. A a ideia que conduz a esta nova barbárie é a aparente lógica que coloca na balança os duzentos mil mortos devidos à bomba e os dois milhões, entre os quais quinhentos mil GI, que teriam sido o preço do prolongamento da guerra por meios clássicos – se calcularmos os resultados a partir de uma extrapolação das baixas sofridas só pela tomada de Okinawa. Antes de mais, é necessário dizer que estes números foram propositadamente aumentados e, sobretudo, que não é preciso ter medo de colocar em evidência um factor decisivo que muito pesou na decisão de recorrer à  bomba atómica. Na consciência do presidente Truman e de muitos americanos, os Japoneses não passavam de ratos, sub-nomes, seres inferiores. Por outro lado, temos presente um facto de guerra com um ingrediente de barbárie suplementar: os extraordinários progressos da ciência colocados ao serviço de um projeto de eliminação tecnocientífica de uma parte da humanidade.
Repito-o, o pior é sempre possível.

Por conseguinte, no que diz respeito à Europa, devemos evitar a todo o custo a boa consciência, dado esta ser sempre uma falsa consciência. O trabalho de memória deve deixar refluir para nós a obsessão das barbáries: servidões, tráfico de Negros, colonizações, racismos, totalitarismos nazi e soviético. Esta obsessão, integrando-se na ideia de Europa, faz com que integremos a barbárie na consciência europeia. Esta é uma condição indispensável se queremos superar novos perigos de barbárie. Mas como a má consciência também é uma falsa consciência, o que nos faz falta é uma dupla consciência. Na consciência da barbárie deve integrar-se a consciência que a Europa produz, pelo Humanismo, pelo universalismo e pela ascensão progressiva de uma consciência planetária, os antídotos para a sua própria barbárie. Esta é outra condição para superar os riscos, sempre presentes, de novas e piores barbáries.
Nada é irreversível e as condições democráticas humanistas devem regenerar-se permanentemente para não degenerarem. A democracia tem necessariamente de se recriar em permanência. Pensar a barbárie é contribuir para a regeneração do humanismo. Logo, é resistir-lhe."


de Edgar Morin, in "Cultura e Barbárie Europeias", 2005



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

"ESQUECE-TE A TI MESMO"




"Esquece todas as coisas.
Com um punção afiado ocupa-te a matar pacientemente as tuas lembranças tal como o antigo imperador matava as moscas.
Não deixes durar a tua felicidade da lembrança até ao futuro.
Não recordes nem prevejas.
Não digas: eu trabalho para alcançar: eu trabalho para esquecer. Esquece o alcançar e o trabalho.
Rebela-te contra o teu trabalho; contra toda a actividade que exceda o momento, rebela-te.
Que a tua marcha não vá de um lado para o outro; porque não há nada disso; mas que cada um dos teus passos seja uma projecção bem orientada.
Apaga com o pé esquerdo a pegada do teu pé direito.
A mão direita deve ignorar o que acabou de fazer a mão direita.
Não te conheças a ti mesmo.
Não te preocupes com a tua liberdade: esquece-te a ti mesmo.

E Monelle disse também: Vou falar-te das minhas palavras."


in  "O Livro de Monelle" de Marcel Schwob




sexta-feira, 8 de novembro de 2013







Sonho com uma casa drusa, inspiradora,
congregadora, reEvolucionária,
onde eu consiga, finalmente, dormir e sonhar...







domingo, 3 de novembro de 2013

"O LUGAR QUE MUDA O LUGAR"




Há dias, no Solar Condes de Resende, em Canelas, 
a convite da livraria Poetria,
tive o prazer de dizer alguns poemas de José Manuel Teixeira da Silva, 
do seu livro intitulado 
"O LUGAR QUE MUDA O LUGAR", 
lançado pela editora lisboeta Língua Morta.




O texto poético sobre a representação do lugar (uma fotografia, um documentário,
uma xilogravura, uma pintura, um projeto arquitetónico, uma árvore cortada...)
que adquire, conscientemente, um espaço próprio conceptual e físico, 
independente e interdependente, pela sua origem e destino,
livre e capaz de transformar, reconfigurar e recriar o espaço em torno e dentro de si
pelo poder da metáfora improvável e rigorosa.


Um livro, também ele um lugar de lugares, 
fisicamente humilde, com um mundo inteiro dentro, 
constituído por contemplações e transmutações de espaços, 
alterando, assim, 
a pequena e inconsútil História e Geografia deste Lugar maior,

nosso, dos leitores

: estes lugares em movimento.



Sem dúvida, uma Viagem a fazer.



(...)






Bem haja, José Manuel Teixeira da Silva.

Consigo somos~mais um país de poetas, de artistas,
de devotos orantes à nossa Kri.ação.


Parabéns!


(o:



quarta-feira, 18 de setembro de 2013

QUINTA DO LUZIO




She's happy!



Fica em Janas, Sintra, e é uma quinta muito especial.
A permacultura e o espírito de comunidade permeiam o espaço.
É uma alternativa inspiradora neste momento que o país e o planeta atravessam.
Venha daí!...



À entrada, víamos na decoração da casa uma lua, uma cruz num monte e, lá atrás, uma estrela de cinco pontas. O espaço
não tem quaisquer filiações religiosas e atualmente ninguém sabe ao certo qual o objetivo dos originais proprietários
 ao escolher estes motivos decorativos...


"Agricultura Biológica, Sustentabilidade, Yoga, Permacultura"...
A oficina...

Uma das hortas...


Outra horta...
Um residente da estufa... Ou voluntário camuflado?
A égua...
Construção de uma "casa de banho seca"...

A zona de banhos (futuros)...




Na zona do pequeno bosque...











À entrada do interior da casa...





A palavra~chave!













Erva medicinais e temperos... Hummm, aromática cozinha!



Gratidão à Quinta do Luzio por tão generosamente nos terem aberto as portas 
; em particular ao Juan pela visita guiada e ao Afonso por todas as informações prestadas.

Gostava tanto de ter ido ao workshop de Chi Kung e Feng Shui...
Espero que numa próxima, muito em breve!

Quando eu for grande, Mãe, quero ter uma quintinha de permacultura, arte, espiritualidade e ciência!


:o)