"Para terminar, queria insistir na ideia de que é necessário
evitar fecharmo-nos num pensamento binário, isto é, um pensamento obnubilado
por um único pólo de atenção em detrimento de outros. Se insistirmos demasiado
só em Auschwitz, corremos o risco de minimizar insidiosamente o goulag e de
silenciar outras barbáries. Se nos limitarmos unicamente ao factor
quantitativo, o número de mortes provocadas pelo sistema concentracionário
soviético foi muito maior. O goulag durou muito mais tempo do que o período de
extermínio nazi que começa em 1942 e termina no início de 1945. Aliás, este
período acabou numa hecatombe de sobreviventes reunidos tragicamente em poucos
dias. O tifo e as longas caminhadas esgotantes, sob condução das SS, para fugir
ao avanço dos Aliados foram horrivelmente mortais. Quando os Aliados chegam às
portas de Dachau, deparam-se com amontoados de cadáveres. Ficou então a
impressão de que o horror nazi se limitou a este efeito de empilhamento de corpos. Na realidade, isto tinha a ver com o facto da máquina de extermínio e eliminação
ter parado. Os fornos já não funcionavam, os cadáveres empilhavam-se. Porém, o
horror nazi tem menos a ver com o empilhamento de cadáveres do que com o
funcionamento desta máquina de morte aperfeiçoada. Não é necessário que uma
imagem, por mais horrível e gritante que seja, nos esconda a realidade. É um
pouco o que se passa. O genocídio judeu é-nos apresentado como sendo mais horrível
do que o extermínio massivo que foi o goulag, do qual não tivemos imagens e que
durante muito tempo foi ocultado. Tudo
isto para dizer que a tendência para negar o goulag em proveito de Auschwitz
ou, obviamente, o contrário, não tem efectivamente sentido. Assim, desconfiemos
da barbárie mental que, para minimizar consciente ou inconscientemente os
crimes do estalinismo, faz do hitlerismo o horror supremo e absoluto.
É a uma nova reivindicação humanista que devem conduzir as
trágicas experiências do século XX: que a barbárie seja reconhecida pelo que é,
sem simplificações ou falsificações de qualquer espécie. O importante não é o
arrependimento mas sim o reconhecimento. Este reconhecimento tem de passar pelo
conhecimento e pela consciência. É necessário saber o que realmente se passou,
ter consciência da complexidade desta colossal tragédia. Este reconhecimento
deve respeitar todas as vítimas: Judeus, Negros, Ciganos, homossexuais,
Arménios, colonizados da Argélia ou de Madagáscar. Este reconhecimento é
necessário se pretendermos ultrapassar a barbárie europeia.
É necessário ser capaz de pensar a barbárie europeia para
ultrapassá-la, pois o pior é sempre possível. No âmago do deserto ameaçador da
barbárie, estamos, de momento, sob a relativa protecção de um oásis. Mas também
sabemos que nos encontramos em condições histórico-político-sociais que tornam
o pior exequível, particularmente em períodos paroxísticos.
Por detrás das próprias estratégias que deveriam
contrariá-la, a barbárie ameaça-nos. O melhor exemplo é Hiroxima. A a ideia que
conduz a esta nova barbárie é a aparente lógica que coloca na balança os
duzentos mil mortos devidos à bomba e os dois milhões, entre os quais
quinhentos mil GI, que teriam sido o preço do prolongamento da guerra por meios
clássicos – se calcularmos os resultados a partir de uma extrapolação das
baixas sofridas só pela tomada de Okinawa. Antes de mais, é necessário dizer
que estes números foram propositadamente aumentados e, sobretudo, que não é
preciso ter medo de colocar em evidência um factor decisivo que muito pesou na
decisão de recorrer à bomba atómica. Na
consciência do presidente Truman e de muitos americanos, os Japoneses não
passavam de ratos, sub-nomes, seres inferiores. Por outro lado, temos presente
um facto de guerra com um ingrediente de barbárie suplementar: os
extraordinários progressos da ciência colocados ao serviço de um projeto de
eliminação tecnocientífica de uma parte da humanidade.
Repito-o, o pior é sempre possível.
Por conseguinte, no que diz respeito à Europa, devemos
evitar a todo o custo a boa consciência, dado esta ser sempre uma falsa
consciência. O trabalho de memória deve deixar refluir para nós a obsessão das
barbáries: servidões, tráfico de Negros, colonizações, racismos, totalitarismos
nazi e soviético. Esta obsessão, integrando-se na ideia de Europa, faz com que
integremos a barbárie na consciência europeia. Esta é uma condição
indispensável se queremos superar novos perigos de barbárie. Mas como a má
consciência também é uma falsa consciência, o que nos faz falta é uma dupla
consciência. Na consciência da barbárie deve integrar-se a consciência que a
Europa produz, pelo Humanismo, pelo universalismo e pela ascensão progressiva
de uma consciência planetária, os antídotos para a sua própria barbárie. Esta é
outra condição para superar os riscos, sempre presentes, de novas e piores
barbáries.
Nada é irreversível e as condições democráticas humanistas
devem regenerar-se permanentemente para não degenerarem. A democracia tem
necessariamente de se recriar em permanência. Pensar a barbárie é contribuir
para a regeneração do humanismo. Logo, é resistir-lhe."
de Edgar Morin, in "Cultura e Barbárie Europeias", 2005


