Em 1674 e em 1678, foi Vieira quem obteve a grande vitória:
conseguiu que Clemente X e Inocêncio XI suspendessem, durante sete anos, o
funcionamento do Santo Ofício em Portugal. Vieira defendia que a Inquisição
portuguesa era mais violenta e feroz do que a espanhola e foram os seus
argumentos que convenceram o papa. E só com ameaças dos bispos do reino e dos
representantes do Santo Ofício, de que a suspensão poderia levar a um cisma do
catolicismo português, o papa seguinte, Clemente XI, voltou a autorizar a
instauração do tribunal.
Nascido em Lisboa em 6 de Fevereiro de 1608, filho de
Cristóvão Vieira Ravasco e da mestiça Maria de Azevedo, António Vieira partiu
para a Baía, no Brasil, com seis anos. Em 1623, decidiu iniciar o noviciado nos
jesuítas e, um ano depois, foi encarregado de escrever a carta anual de
relatório para o geral da Companhia de Jesus. Em 1633, fazia o primeiro sermão
público e, dois anos depois, era ordenado padre.
O sermões foram sempre, para Vieira, uma das suas armas.
Neles reflectia as causas maiores do seu empenhamento: a defesa dos judeus e
dos cristãos-novos, que o levaria ao combate com os inquisidores, era talvez a
mais importante. Mas também o apoio aos índios e (embora com hesitações) a oposição
à escravatura estavam entre as suas prioridades.
É célebre o Sermão de Santo António aos Peixes, com a imagem
do grande que come o pequeno: Não só vos comeis uns aos outros, senão que os
grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os
pequenos comeram os grandes, bastará um grande para muitos pequenos, não bastam
cem pequenos, nem mil, para um só grande.
Na ordem social do Brasil, a par da defesa dos direitos dos
índios, Vieira era um duro crítico dos colonos portugueses. Mas o seu combate
dirigia-se genericamente contra todos os que, investidos de poder, o usavam em
proveito próprio. No Sermão do Bom Ladrão, que pronunciou na Capela da
Misericórdia de Lisboa, em 1655, dizia ele: Os ladrões de que falo não são
aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este
género de vida (...) O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao
Inferno. O que não só vão, mas levam, de que eu trato, são (...) aqueles a quem
os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração
das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos.
Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos.
A defesa dos índios tinha um projecto utópico de sociedade
quase teocrática por detrás – que chegou a ter uma experiência avançada com as
Reduções do Paraguai, retratadas no cinema pelo filme A Missão. António Moreira
Teixeira explica essa coincidência de objectivos: Para salvar o projecto
utópico da Nova Igreja, a Igreja do Novo Mundo, era necessário preservar a
liberdade das populações com as quais os jesuítas procuravam construir novas
comunidades, regidas exclusivamente pelos preceitos religiosos. O continente
americano constituiu, aliás, o espaço privilegiado para a implantação de um
conjunto de comunidades experimentais de vida religiosa, tanto católicas como
protestantes.
(...)
Não por acaso, durante quase três séculos, Vieira foi
considerado impostor, traidor e criminoso. Já quando Fernando Pessoa, que nada
entendeu da sua utopia, o chamava “imperador da língua portuguesa”, desde há
muito começara o processo estratégico de encerrar este gigante da nossa
História na sacristia de orador sagrado, escreveu o jesuíta e historiador
António Lopes. Para determinadas ideologias, acrescenta, havia que reduzi-lo a
um títere inofensivo.
Uma atitude que levou muitos a passar uma esponja sobre
diversos aspectos da vida do missionário, descreve António Lopes no boletim
Jesuítas: dez anos de luta e de viagens de uma espantosa actividade
missionária, em que chegou a aprender sete línguas nativas da Amazónia e
durante os quais criticou os colonos, defendeu os índios e propôs leis para
salvaguardar os indígenas brasileiros. Esquecidas ficaram também as geniais
disputas com os inquisidores de Coimbra, a luta mais titânica da sua vida: a
defesa dos cristãos-novos, e a vitória que mais ninguém obteve, com a
suspensão, durante sete anos, do Tribunal do Santo Ofício.
(...)
Apesar das polémicas, o jesuíta foi, enquanto viveu, bem
acolhido por diversos sectores da sociedade portuguesa. Os seus primeiros
ouvintes mandavam lançar tapete de madrugada na Igreja de São Roque, em Lisboa,
como dizia Francisco Manuel de Melo, citado por Pinto de Castro. A morte do
jesuíta seria o primeiro grande momento catalisador dessa entrada na memória
colectiva dos portugueses. O movimento editorial de publicaçãoo das obras de
Vieira, que começara ainda em vida do missionário, tinha vindo a ser preparado
pelo próprio, com a edição princeps dos Sermões, desde 1679.
Esse trabalho continuou depois e, na época subsequente à sua
morte, Vieira era de leitura fácil e corrente e o Sermão da Sexagésima
continha, nas suas censuras e nos preceitos que estabelecia para quem pregava e
para quem ouvia (...) a base do que viria a chamar-se o método português de pregar
– considera Pinto de Castro. E Charles Borges, de Goa, na linha de Pessoa,
sintetiza que Vieira usou a língua portuguesa até aos seus limites máximos e
embelezou-a enquanto fez dela um veículo para propagar a palavra de Deus, aplicável
para os tempos em que ele viveu.
O Tema de 74 anos
Enfim, o Reino Universal de Cristo (por vezes confundido com
o Quinto Império) foi o tema fundamental na vida e obra de Vieira – meditou
sobre ele durante 74 anos, diz António Lopes. As suas referências ao Império
Universal de paz e amor vinham-lhe da Bíblia e do estudo intenso da Bíblia que
Vieira sempre fez. O tema passou pelas profecias do Bandarra e pela
ressurreição de D. João IV mas, no final, Vieira propunha apenas a instauração
do reino de Deus, afinal o tema central do Evangelho, com uma visão de utopia
universalista: A reconciliação de toda a humanidade, para que toda a gente
vivesse em justiça e amor.
Ideia semelhante à defendida por Maria Lucília Pires, da
Faculdade de Letras de Lisboa. O labor missionário de Vieira, escreve ela no
número da revista Oceanos dedicado ao jesuíta, é inspirado pelo ideal da
construção do reino de Cristo na terra, cuja plena realização considera
iminente.
A obra fundamental para perceber a abordagem de Vieira sobre
este tema é a Clavis Prophetarum (A Chave dos Profetas), também conhecida como
Clavis Prophetica ou de Regno Christi in terris consummato (Do Reino de Cristo
Consumado na Terra). Mas esta obra, que o autor não concluiu, permanece
inédita, estando a sua publicação prevista para breve.
Arnaldo Espírito Santo, coordenador da edição crítica da
Clavis, ao apresentar a obra no número da Oceanos dedicado a Vieira explica: A
designação do Quinto Império deriva da exegese das visões do profeta Daniel.
Uma estátua, vista em sonhos por Nabucodonosor, constituída por quatro metais,
simbolizava quatro impérios ou reino: o assírio, o persa, o grego, o romano
(este ainda representado nos reinos da Europa, particularmente nos dois países
ibéricos). Um novo império, o quinto, estava prefigurado na mesma profecia por
uma pedra gigantesca que de desprendia da montanha e reduzia a pó a estátua,
avolumando-se de seguida até cobrir toda a terra. É nesta pedra que Vieira vê
Cristo e o seu Império, o quinto na ordem de sucessão, que está prestes a
surgir graças ao anuncio do Evangelho a todos os povos.
Vieira era um homem do seu tempo, escreve Maria José Ferro
Tavares, nas Actas do Congresso Internacional, sobre o messianismo na obra do
jesuíta. E a sua época viva sob a pressão de hecatombes cósmicas, de pestes,
fomes e da iminência da invasão turca ao interior da cristandade. Vivia-se um
período entendido como pré-apocalíptico, alimentado profecias antigas e
modernas por essa Europa fora, a que não eram estranhas as várias cisões
religiosas da cristandade e as guerras que delas advieram.
(...)
Dessa visão apocalíptica que dominou quase toda a sua vida,
Vieira evoluiu, no final, para a ideia de que a sua utopia se consubstanciava
apenas na paz universal, na união de todos os reinos, povos, culturas e
religiões sob um só ceptro (...)
E António Lopes, que também se debruçou sobre o texto até agora inédito, afirmou no Congresso Internacional sobre Viena: Na “Clavis”, das
trovas e do profetismo de Bandarra nem uma palavra; do “Encoberto” nem uma
palavra; de D. João IV e da sua ressurreição nem uma palavra; do Império Universal
português (o Quinto Império) nem uma palavra; dos cômputos intermináveis sobre
o ano fatal nem uma palavra. Tudo gira à volta de Cristo, porque tudo partiu do
chamamento, aos 15 anos, para um ideal missionário de transformar o mundo.
(...) Chamamento para fazer avançar a história humana na reconciliação e na
amorização dos homens de todas as condições, religiões e situações sociais.
Através de um trabalho insano em todas as frentes; através
de muitas derrotas profundamente humilhantes; através de muitas ingratidões,
sobretudo dos seus compatriotas, Vieira vai descobrindo que só há uma força
capaz de implantar o Reino de Cristo; o poder do amor humilde. (...) Na
plenitude dos tempos, no momento em que, para ele, começa o Reino (e que chegou
a chamar “Quinto Império”), só então – quando cada homem despojar o próprio
coração da ambição do poder e do ter – chegará esse Reino à sua plenitude na
terra.
Henri Tincq, in “Os Génios do Cristianismo – Histórias de Profetas, de Pecadores e de Santos”, 1999