terça-feira, 15 de abril de 2014

GRAILS' FUSION





Abracadabrahocus pocus, tontus talontus, vade celerita jubes, expelliarmus
(I’m not laughing)
she walks in a blade while he cries the tears of the world
; yet, mirthful future memories echoe
from boxes inside walls with keys inside locks without doors
in a lovely caravan which is a caravel.

Reprogramações sílico~fotónicas, cavada e brandamente, sem apego,
retomam as pastas de Mahatma Gandhi, Martin Luther Kink Jr. e Teresa de Ávila
: e pluribus unum.

Both, woman and man, evolve evolution
bringing Christ and Budha down
into their powerful hearts.



gypZy suza(m)na guimaraens hezequiel



sexta-feira, 28 de março de 2014

TUGÚRIA


Habitamos no tugúrio preto e vermelho,
com holofotes semiocultos pela nevoaça de nicotina
; sai pivete das bocas com verdete,
mas é luz coada entre ramos e rebentos de verde tenro.

Alguns carros apitam o nervosismo dos automobilistas,
não obstante os pintassilgos que ausculto
e mais além patitos selvagens que cambaleiam atrás da mãe.

Respiro um ar mais próximo de ti
– nítido como a Joaninha aos três anos.

A poesia assoma neste lugar
onde não há feministas histéricas ou volúveis cavalheiros.

Neste lugar
o protagonismo não é da sombra que esmaga asas
ou de uma luz que recusa aceitar a morte deste Sol,
como se não houvera sóis a nascer em outras galáxias.

Este Aqui ocupa o lugar vazio reservado à consciência
da dissolução e da congregação das estrelas
em dimensões paralelas e perpendiculares
: o rigor e a tolerância dançando.

E a floresta anoitece sem medo de violadores
e mirones que mentem sobre o seu signo zodiacal
ou roubam máquinas fotográficas.

Aqui os pornografeiros em idade núbil desformatam
o cérebro de lugares-comuns  
e aprendem o namoro dos corpos sem maquilhagem
: a neuroestética desperta os seus critérios.

Reanimamos a política da palavra,
abraçamos pelo meio cada treinador de bancada
e as necessitadas que roem as unhas de gel,
pintamos-lhes as suas próprias cores ante a derrota,
entesoamos “o amor à camisola”,
cantando um hino sintetizado~acústico em honra da Galáxia
: a reEvolução não se faz para não se ser
; a reEvolução é uma atitude de manga arregaçada até ao cerne do vazio.

E escrevo para que não me esqueça de onde vim e da necessidade do caos.


suza(m)na guimaraens

27 Março 2014

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

"O PODER DO AMOR HUMILDE"





Em 1674 e em 1678, foi Vieira quem obteve a grande vitória: conseguiu que Clemente X e Inocêncio XI suspendessem, durante sete anos, o funcionamento do Santo Ofício em Portugal. Vieira defendia que a Inquisição portuguesa era mais violenta e feroz do que a espanhola e foram os seus argumentos que convenceram o papa. E só com ameaças dos bispos do reino e dos representantes do Santo Ofício, de que a suspensão poderia levar a um cisma do catolicismo português, o papa seguinte, Clemente XI, voltou a autorizar a instauração do tribunal.

Nascido em Lisboa em 6 de Fevereiro de 1608, filho de Cristóvão Vieira Ravasco e da mestiça Maria de Azevedo, António Vieira partiu para a Baía, no Brasil, com seis anos. Em 1623, decidiu iniciar o noviciado nos jesuítas e, um ano depois, foi encarregado de escrever a carta anual de relatório para o geral da Companhia de Jesus. Em 1633, fazia o primeiro sermão público e, dois anos depois, era ordenado padre.

O sermões foram sempre, para Vieira, uma das suas armas. Neles reflectia as causas maiores do seu empenhamento: a defesa dos judeus e dos cristãos-novos, que o levaria ao combate com os inquisidores, era talvez a mais importante. Mas também o apoio aos índios e (embora com hesitações) a oposição à escravatura estavam entre as suas prioridades.

É célebre o Sermão de Santo António aos Peixes, com a imagem do grande que come o pequeno: Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastará um grande para muitos pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.

Na ordem social do Brasil, a par da defesa dos direitos dos índios, Vieira era um duro crítico dos colonos portugueses. Mas o seu combate dirigia-se genericamente contra todos os que, investidos de poder, o usavam em proveito próprio. No Sermão do Bom Ladrão, que pronunciou na Capela da Misericórdia de Lisboa, em 1655, dizia ele: Os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este género de vida (...) O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao Inferno. O que não só vão, mas levam, de que eu trato, são (...) aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos.

A defesa dos índios tinha um projecto utópico de sociedade quase teocrática por detrás – que chegou a ter uma experiência avançada com as Reduções do Paraguai, retratadas no cinema pelo filme A Missão. António Moreira Teixeira explica essa coincidência de objectivos: Para salvar o projecto utópico da Nova Igreja, a Igreja do Novo Mundo, era necessário preservar a liberdade das populações com as quais os jesuítas procuravam construir novas comunidades, regidas exclusivamente pelos preceitos religiosos. O continente americano constituiu, aliás, o espaço privilegiado para a implantação de um conjunto de comunidades experimentais de vida religiosa, tanto católicas como protestantes.
 (...)

Não por acaso, durante quase três séculos, Vieira foi considerado impostor, traidor e criminoso. Já quando Fernando Pessoa, que nada entendeu da sua utopia, o chamava “imperador da língua portuguesa”, desde há muito começara o processo estratégico de encerrar este gigante da nossa História na sacristia de orador sagrado, escreveu o jesuíta e historiador António Lopes. Para determinadas ideologias, acrescenta, havia que reduzi-lo a um títere inofensivo.

Uma atitude que levou muitos a passar uma esponja sobre diversos aspectos da vida do missionário, descreve António Lopes no boletim Jesuítas: dez anos de luta e de viagens de uma espantosa actividade missionária, em que chegou a aprender sete línguas nativas da Amazónia e durante os quais criticou os colonos, defendeu os índios e propôs leis para salvaguardar os indígenas brasileiros. Esquecidas ficaram também as geniais disputas com os inquisidores de Coimbra, a luta mais titânica da sua vida: a defesa dos cristãos-novos, e a vitória que mais ninguém obteve, com a suspensão, durante sete anos, do Tribunal do Santo Ofício.
(...)

Apesar das polémicas, o jesuíta foi, enquanto viveu, bem acolhido por diversos sectores da sociedade portuguesa. Os seus primeiros ouvintes mandavam lançar tapete de madrugada na Igreja de São Roque, em Lisboa, como dizia Francisco Manuel de Melo, citado por Pinto de Castro. A morte do jesuíta seria o primeiro grande momento catalisador dessa entrada na memória colectiva dos portugueses. O movimento editorial de publicaçãoo das obras de Vieira, que começara ainda em vida do missionário, tinha vindo a ser preparado pelo próprio, com a edição princeps dos Sermões, desde 1679.

Esse trabalho continuou depois e, na época subsequente à sua morte, Vieira era de leitura fácil e corrente e o Sermão da Sexagésima continha, nas suas censuras e nos preceitos que estabelecia para quem pregava e para quem ouvia (...) a base do que viria a chamar-se o método português de pregar – considera Pinto de Castro. E Charles Borges, de Goa, na linha de Pessoa, sintetiza que Vieira usou a língua portuguesa até aos seus limites máximos e embelezou-a enquanto fez dela um veículo para propagar a palavra de Deus, aplicável para os tempos em que ele viveu.


O Tema de 74 anos

Enfim, o Reino Universal de Cristo (por vezes confundido com o Quinto Império) foi o tema fundamental na vida e obra de Vieira – meditou sobre ele durante 74 anos, diz António Lopes. As suas referências ao Império Universal de paz e amor vinham-lhe da Bíblia e do estudo intenso da Bíblia que Vieira sempre fez. O tema passou pelas profecias do Bandarra e pela ressurreição de D. João IV mas, no final, Vieira propunha apenas a instauração do reino de Deus, afinal o tema central do Evangelho, com uma visão de utopia universalista: A reconciliação de toda a humanidade, para que toda a gente vivesse em justiça e amor.

Ideia semelhante à defendida por Maria Lucília Pires, da Faculdade de Letras de Lisboa. O labor missionário de Vieira, escreve ela no número da revista Oceanos dedicado ao jesuíta, é inspirado pelo ideal da construção do reino de Cristo na terra, cuja plena realização considera iminente.

A obra fundamental para perceber a abordagem de Vieira sobre este tema é a Clavis Prophetarum (A Chave dos Profetas), também conhecida como Clavis Prophetica ou de Regno Christi in terris consummato (Do Reino de Cristo Consumado na Terra). Mas esta obra, que o autor não concluiu, permanece inédita, estando a sua publicação prevista para breve.

Arnaldo Espírito Santo, coordenador da edição crítica da Clavis, ao apresentar a obra no número da Oceanos dedicado a Vieira explica: A designação do Quinto Império deriva da exegese das visões do profeta Daniel. Uma estátua, vista em sonhos por Nabucodonosor, constituída por quatro metais, simbolizava quatro impérios ou reino: o assírio, o persa, o grego, o romano (este ainda representado nos reinos da Europa, particularmente nos dois países ibéricos). Um novo império, o quinto, estava prefigurado na mesma profecia por uma pedra gigantesca que de desprendia da montanha e reduzia a pó a estátua, avolumando-se de seguida até cobrir toda a terra. É nesta pedra que Vieira vê Cristo e o seu Império, o quinto na ordem de sucessão, que está prestes a surgir graças ao anuncio do Evangelho a todos os povos.

Vieira era um homem do seu tempo, escreve Maria José Ferro Tavares, nas Actas do Congresso Internacional, sobre o messianismo na obra do jesuíta. E a sua época viva sob a pressão de hecatombes cósmicas, de pestes, fomes e da iminência da invasão turca ao interior da cristandade. Vivia-se um período entendido como pré-apocalíptico, alimentado profecias antigas e modernas por essa Europa fora, a que não eram estranhas as várias cisões religiosas da cristandade e as guerras que delas advieram.
(...)

Dessa visão apocalíptica que dominou quase toda a sua vida, Vieira evoluiu, no final, para a ideia de que a sua utopia se consubstanciava apenas na paz universal, na união de todos os reinos, povos, culturas e religiões sob um só ceptro (...)

E António Lopes, que também se debruçou sobre o texto até agora inédito, afirmou no Congresso Internacional sobre Viena: Na “Clavis”, das trovas e do profetismo de Bandarra nem uma palavra; do “Encoberto” nem uma palavra; de D. João IV e da sua ressurreição nem uma palavra; do Império Universal português (o Quinto Império) nem uma palavra; dos cômputos intermináveis sobre o ano fatal nem uma palavra. Tudo gira à volta de Cristo, porque tudo partiu do chamamento, aos 15 anos, para um ideal missionário de transformar o mundo. (...) Chamamento para fazer avançar a história humana na reconciliação e na amorização dos homens de todas as condições, religiões e situações sociais.

Através de um trabalho insano em todas as frentes; através de muitas derrotas profundamente humilhantes; através de muitas ingratidões, sobretudo dos seus compatriotas, Vieira vai descobrindo que só há uma força capaz de implantar o Reino de Cristo; o poder do amor humilde. (...) Na plenitude dos tempos, no momento em que, para ele, começa o Reino (e que chegou a chamar “Quinto Império”), só então – quando cada homem despojar o próprio coração da ambição do poder e do ter – chegará esse Reino à sua plenitude na terra.



Henri Tincq, in “Os Génios do Cristianismo – Histórias de Profetas, de Pecadores e de Santos”, 1999

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A SALVAÇÃO PELA METÁFORA


no primeiro dia de 2014, o ano do cavalo de madeira





Oh, magnífico corcel sem paramento,
pela haste pura na tua fronte
vi o que tu viste

: que nascêramos sob um só signo e ascendente
e juntos, com alma de infante,
alisávamos cumes de arranha-céus
que ocultavam ao homem o bruxulear das estrelas
~ das vivas e das mortas ~

Vozes acometiam-nos contra paredes de espinhos,
mas rendas vintage e novas fibras fluindo num só Corpo
desfaziam essas taipas em pó iridescente

E da dor que mais me doía,
que era a do pensamento e das teorias flutuantes,
uma luz se confundia no Lugar Fixo dos Espelhos

: pelo relevo curvilíneo de albufeira,
a galope, 
formávamos naus e caravelas,
para inflamar de Inocência
antigos continentes.

Seguimos no fúcsia e dourado
desse rasto de incêndio
com os olhos como sóis,
sabendo, com a precisão do coração,
que era o caminho da imprudência.

Então, do teu dorso sem cela,
por florestas de acácias e eucaliptos em combustão,
vi, oh alazão branco,
pelo teu mastro transparente,
um écran de 360 graus nas águas ressoando,
: a cura da História de profetas, santos, pecadores
e pregadores, outrora sem salvação

(E quais as salvações
que não nos escravizam o tempo
e a construção de Deus?)

Conviver com o fim,
matar a fome das nossas asas,
assistir à morte de um unicórnio
e depositar-lhe no chifre a imagem de flores vivas
; esta paradoxal imagem do amor
que nunca se consome



suza(m)na ~ janeiro 2014