terça-feira, 6 de maio de 2014
"SAUDADES PAGÃS"
I
Visões! sonhos antigos!
Quando a Terra,
Na inocência primeira de seus anos,
Entre flores dormia... e era seu berço
O seio de mil deuses! Quando a vida
No coração dos homens, sem esforço,
Se abria como um lótus, todo cheio
Dos raios do luar e dos segredos
Do vaporoso espírito das noites!
Quando um tronco era peito comovido,
E a montanha um Augur, e a rocha oráculo;
E não se achava um só bago de areia
Que não estremecesse e não sentisse
Agitar-se-lhe dentro a alma confusa
Quando os Orpheus passavam, silenciosos,
Por entre os arvoredos, meditando!
Saía então da Terra um grande espírito:
Havia em tudo uma expressão profunda:
Nem era muda a vastidão do mundo.
Como um canto que fere as cordas todas
Duma harpa sonora, uma mesma alma
Através do Universo ia acordando,
Em peito, árvore, pedra, e céu e onda,
As mil notas, diversas mas cadentes,
Duma mesma harmonia – o hino da Vida!
Era a cidade ideal da Natureza!
Seu povo, a criação; seu templo, o espaço;
E muralhas em volta, circundando-a,
Dum lado ao outro os livres horizontes!
Era a cidade ideal! a Lei eterna
Banhava-a sempre numa aurora imensa,
Quando um povo de deuses, radiante
De mocidade e brilho, caminhava
Por entre as multidões – e o solo heróico,
Teu solo sacrossanto, ó Grécia antiga,
Como um sublime palco, sob os passos
Dos actores divinos ressoava!
Antero de Quental (1842-1891)
quarta-feira, 30 de abril de 2014
terça-feira, 29 de abril de 2014
"ORAÇÃO À LUZ"
Claro mistério
Do azul etéreo!
Sonho sidéreo!
Luz!
Da terra dorida
Alento e guarida!
Fermento da vida,
Luz!
Eucaristia santa,
Vinho e pão que
alevanta
Homem, rochedo e
planta...
Luz!
Virgem ígnea das sete
cores,
Toda abrasada
d’esplendores,
Mãe dos heróis e mãe
das flores,
Luz!
Fiat harmónico e
jucundo,
Verbo diáfano e
profundo,
Alma do Sol, corpo do
mundo,
Luz!
Luz-esp’rança luz
rútila da aurora,
Vida vibrando na
amplidão sonora,
Vida cantando pela
vida fora,
Luz!
Luz que nos dás o
pão, ó luz amada!
Luz que nos dás o
sangue, ó luz doirada!
Luz que nos dás o
olhar, luz encantada!
Bendita sejas, luz,
bendita sejas!
Sejas bendita em nós,
ó fonte de harmonia!
Sejas bendita em nós,
ó urna de alegria!
Bendito seja o filho
teu, o alvor do dia!
Perpetuamente, ó luz,
ó mãe, bendita sejas!
A inabalável rocha
taciturna,
Quando a electriza
teu deslumbramento,
Acorda e sonha na
mudez soturna...
Por ti se volve
areia; e num momento
A areia é lodo, é
seiva, é fruto lindo,
É carne humana, é
sangue, é pensamento...
Por ti a água exulta,
anda bramindo,
Por ti rola do monte
ao sorvedoiro,
E voa, em nuvens,
pelo azul infindo...
Por ti orvalho: Cai
no trigo loiro?
É pão e é hóstia...
Cai na flor? incenso,
Néctar, abelha,
borboleta d’oiro...
Por ti flutua o ar,
um mar imenso,
Prenhe de vidas
invisíveis, onde
Todo o sonho da terra
anda suspenso...
Ao teu hálito, ó luz,
nada se esconde:
Brilhas! e a alma
opaca da matéria
Das entranhas do
globo te responde!...
Brilhas! E amor e
dor, luto, miséria,
Doira-os a graça, a
juventude, o encanto
Do teu manto de
púrpura sidérea!
És tu que alumbras
alegria e pranto:
No sorriso do herói
clarão eterno,
Prisma de Deus na
lágrima do santo.
Em teu fulgor
genésico e materno
Surdem núpcias das
campas viridentes
E um novo Abril
palpita em cada Inverno...
Por ti suspiram, sem
te ver, dormentes,
As almas vegetais,
indefinidas
No mistério nocturno
das sementes...
Germinando por ti,
por ti vestidas,
Sonham aroma, sonham
forma e cor,
Em teu alvor
magnético embebidas...
E esplêndidas de
graça, enlevo e amor,
Erguem-te, ó luz, um
ai de luz radiante,
Aberto em beijo,
idealizado em flor!...
Por teu frémito
d’oiro, instante a instante,
O verme cego,
enclausurado, imundo,
Gera visão liberta e
deslumbrante.
Por ti um sopro
anímico e fecundo
Penetra o lodo, a
rocha, a água, o ar,
Voa de esporo a
esporo, e mundo a mundo...
Por ti a asa, o
lábio, a mão, o olhar...
Por ti o canto e o
riso e o beijo e a ideia...
Por ti o verbo ser e
o verbo amar!...
A inextrincável, a
infindável teia
Do sonho do universo
em luz urdida,
Em luz vislumbra e
misteriosa ondeia...
Suspensa em luz, da
mesma luz nutrida,
Vai para Deus rolando
eternamente
A dor, na eterna
evolução da vida...
Homem, nuvem,
granito, onda, serpente,
A rocha, o ar, o
abutre, a folha d’hera,
O mundo, os mundos,
tudo o que é vivente,
Do lodo à águia, do
metal à fera,
Da fera ao anjo, do
covil à cruz,
Move-se tudo, existe
e reverbera,
Sonhando, amando,
palpitando em luz!...
(...)
Junqueiro, o mesmo poeta
que grafou em “Anotações” à Pátria, dedicado a Basílio Teles:
Roubados e insultados. O país protesta, num vigoroso movimento de indignação e de cólera. Uma criatura houve que ficou impassível: o rei. Não teve aquela mão um gesto de furor, não encontrou aquela boca uma palavra de altivez. No dia seguinte, em carro descoberto, charuto a arder, expunha D. Carlos, na Avenida, aos transeuntes atónitos, a inconsciência lorpa da sua figura habitual.
Roubados e insultados. O país protesta, num vigoroso movimento de indignação e de cólera. Uma criatura houve que ficou impassível: o rei. Não teve aquela mão um gesto de furor, não encontrou aquela boca uma palavra de altivez. No dia seguinte, em carro descoberto, charuto a arder, expunha D. Carlos, na Avenida, aos transeuntes atónitos, a inconsciência lorpa da sua figura habitual.
No prefácio à 2ª edição da
obra “A Morte de D. João”, escreveu Junqueiro contra os seus censores:
Chorar, crer, amar –
eis o triângulo luminoso dentro do qual está encerrado o destino do poeta.
O trovador deve ser
uma espécie de ignorante divino, de sublime analfabeto, vivendo fora desta
realidade prosaica, nos mundos vaporosos do sonho, do êxtase e do mistério... –
E, ai dele, se um dia morder os frutos venenosos da ciência! Ai dele, se baixar
os olhos lacrimosos das regiões sublimes para os lançar aos tremendais onde se
envolve a miséria, a crápula, o formigueiro do vício.
Desde esse momento o
poeta, o anjo, que arrancava da lira as canções dulcíssimas e plangentes,
ficará sendo apenas um energúmeno retórico sovando a golpes de alexandrinos a
zabumba das filantropias sociais.
Guerra Junqueiro, a quem
alguns nunca perdoaram o tom satírico dirigido à monarquia (timbre que, não
raras vezes, o conduziu ao banco dos réus), trouxe, assim, para a poesia, a
agitação do seu tempo, fazendo do verbo uma ferramenta de mudança e intervenção
cívica. A mesma voz que exerceu a sua expressão no governo
republicano; a mesma voz que ora à Luz-sem-tempo:
(continuação de "ORAÇÃO À LUZ")
Oremus:
Cândida luz da
estrela matutina,
Lágrima argêntea na
amplidão divina,
Abre meus olhos com o
teu olhar!
Viva luz das manhãs
esplendorosas,
Doira-me a fronte,
inunda-me de rosas,
Para cantar!
Luz abrasando, crepitando
chama,
Arde em meu sangue,
meu vigor inflama,
Para lutar!
Luz das penumbras a
tremer nas águas,
Vela as montanhas dum
vapor de mágoas.
Para sonhar!
Para sonhar!
Luz dolorosa, branda
luz da Lua,
Embala, embebe a
minha dor na tua,
Para chorar!
Luz das estrelas,
vaga luz silente,
Cai dos abismos do
mistério ardente,
Sangra calvários
infinitamente,
Para eu rezar!
E cantando,
E lutando,
E sonhando,
E chorando,
E rezando,
Farei da cega luz que
me alumia
A luz espiritual do
grande dia,
A luz de Deus, a luz
do Amor, a luz do Bem,
A luz de glória eterna, a luz da luz, amén!
A luz de glória eterna, a luz da luz, amén!
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